Aliando gerações, Lelê é uma das principais danças típicas da cultura maranhense

Publicado em: 25/05/2022 às 08h15

Brincantes do Lelê se preparam para o São João em ensaio. — Foto: Reprodução/TV Mirante

Brincantes do Lelê se preparam para o São João em ensaio. — Foto: Reprodução/TV Mirante

No período junino, as manifestações culturais realizadas no Maranhão evocam beleza e saúdam, na mesma medida, tons tradicionais e contemporâneos.

O Lelê, ou dança do péla-porco, conforme as nomenclaturas possíveis, alia as reminiscências de ritos, associada à incrementação dos gingados, conforme a evolução dos estilos de dança desde a sua origem. No São João, além do lelê, o cacuriá, o tambor de crioula e o coco compõem algumas das principais expressões de dança popular, preservadas, ainda hoje, no estado.

A origem do lelê remonta à influência da dança ibérica, sobretudo na instrumentação utilizada para a performance dos brincantes, com violões, cavaquinhos, flautas e rabecas. A história também registra que a dança do lelê sofreu certa influência dos franceses, até assumir a sua forma folclórica – datada, segundo informações, desde o século XIX – na região do Munim, em municípios maranhenses como Axixá e Rosário.

Os dançantes, no salão, costumam movimentar-se em honra aos santos, sob as ordens do mandante, que dá a regência para que os grupos se enfileirem, entre homens e mulheres. Com quatro partes, os ritos têm início com o ‘chorado’. É o momento em que os convites se iniciam, para o encaminhamento da ‘dança grande’, considerada a parte fundamental do lelê, quando os pares se cortejam mutuamente.

A dança do lelê envolve entrosamento entre os pares. — Foto: Reprodução/TV Mirante

A dança do lelê envolve entrosamento entre os pares. — Foto: Reprodução/TV Mirante

Na ‘talavera’, chega-se ao momento íntimo: os brincantes se entregam, madrugada adentro, com os corpos entrelaçados, dançando, até a chegada do ‘cajueiro’, no qual a festa se conclui com a simbologia da entrega de cajus ao público.
Em São Luís, o grupo tradicional ‘Lelê de São Simão’ ajuda a manter aceso o legado de tantas gerações. A participante Lindinalva Martins, que auxilia a companhia na organização de documentações e na confecção de indumentárias, explica que a preservação da dança é, antes de tudo, uma satisfação.
“Nos dias de hoje, sinto-me muito lisonjeada de fazer parte do grupo do Lelê de São Simão. Uma dança centenária […] que permanece viva dentro de cada conterrâneo do nosso povoado, passada de geração a geração.’’
Lindinalva Martins também relata as dificuldades enfrentadas pela paralisação das atividades do ‘Lelê de São Simão’, no período mais crítico da pandemia da Covid-19. O lelê, tradicionalmente, conta com brincantes na faixa etária de 70 a 80 anos. A perda de alguns amigos brincantes e o temor do vírus a fizeram pensar que não seria mais possível retomar à organização das danças.
“Foi uma sensação de medo. Cheguei a pensar que isso nunca fosse passar […] Perdemos muitas pessoas conhecidas para o Covid, e isso me entristecia a cada dia.”
Com o retorno do São João, no Maranhão, em 2022, os ânimos se renovam. Lindinalva Martins explica que a ansiedade e a alegria de poder voltar às apresentações do Lelê não lhe tem faltado.
“Minha expectativa é muito grande. Estou ansiosa para ver e viver esse momento com os amigos. Levar a minha cultura para mostrar para esse povo que gosta de prestigiar a cultura maranhense. Conto as horas, minutos, segundos, para viver e rever tudo de bom que a festa de São João nos proporciona’, disse.

Para o multi-instrumentista e cantador do lelê, Gilmar Rocha, a dança faz parte do seu imaginário e de sua vida, desde a infância. Nascido no povoado de ‘São Simão’, quando garoto, observou os cantadores experientes nos festejos, costumeiramente realizados no período junino e no Festejo da Conceição.

“[…] Eu sou filho do povoado de são simão, nascido e criado nesse lugar, e sempre observei os mais velhos cantando e tocando a dança do lelê […] a gente observou isso aí muito bem, durante a infância e até os dias de hoje”, explicou.

A preservação do lelê, contudo, enfrenta dificuldades. Com a passagem de gerações, Gilmar explica que há muita resistência para que o folclore permaneça ativo, encantando espectadores. A exposição da cultura, como mecanismo de conservação, é uma das formas utilizadas por Gilvan parar atrair o interesse dos jovens.

“[…] eu tento explicar pra essa nova geração, que a gente não pode perder a nossa cultura; o que a gente tem de melhor; o que representa o lugar. É isso que eu falo pra eles, pra gente não deixar morrer essa geração que entregaram pra gente. O meu pensamento é de passar pra outras pessoas […]’’, concluiu.

A retomada das festividades do período junino celebra a riqueza de manifestações culturais maranhenses, e a participação das tradições populares, marcadas por personagens que se dedicam a fazer da própria origem um referencial de beleza. A vida e a arte, para os brincantes, se perpassam, como um rio cujo leito é a história e, assim como o jorrar das águas, ora revoltas; ora em mansidão, sua força nunca seca.

* Matéria realizada sob supervisão de Rafael Cardoso, g1 MA.

 Fonte: G1 Maranhão

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