As finanças do Corinthians em 2019: o clube que espanholizaria o futebol brasileiro afunda em crise na despedida de Andrés Sanchez

Publicado em: 17/06/2020 às 07h50

O estádio tira receitas relevantes, a “política” custa muito caro, e a ambição de reforçar o futebol endividou perigosamente a instituição no curto prazo. A culpa desta tragédia não é da pandemia.

As finanças do Corinthians — Foto: Infoesporte

As finanças do Corinthians — Foto: Infoesporte

Andrés Sanchez tem resposta pronta para a crise financeira em que meteu o Corinthians na sua segunda passagem na presidência, desde o começo de 2018. Em entrevistas recentes, para justificar prejuízos e dívidas, o presidente se colocou na seguinte cilada:

Se vende jogadores e tenta pagar as contas, o presidente é acusado por imprensa e torcida de desmanchar o time
Se contrata jogadores e desembolsa salários, luvas e comissões para tê-los, o presidente é criticado por endividar o clube
A justificativa funciona porque desarma a opinião pública. É verdade que parte da imprensa cobra contratações e títulos sem se questionar sobre as consequências nas contas. E o torcedor, logicamente, prefere ver o futebol reforçado do que desfeito para pagar dívidas.

É uma falsa dicotomia, no entanto – quando se tenta convencer o público de que duas situações são opostas e inconciliáveis. Andrés, bom orador que é, apoia-se em uma falácia para não ter de detalhar ao torcedor tudo mais que dá errado em sua administração desde o retorno.

Baseado nas demonstrações financeiras publicadas pelo Corinthians – que por muito tempo deu sinais de que “espanholizaria” o futebol brasileiro ao lado do Flamengo, financeira e esportivamente –, o GloboEsporte.com mostra o que escapa ao discurso do dirigente.
Desde o começo…
A primeira constatação: sim, há crise financeira no Parque São Jorge. O Corinthians, que esteve entre os maiores faturamentos no início desta década e tinha situação razoavelmente controlada, hoje tem dificuldade para arrecadar tanto quanto adversários diretos.

Pior ainda, o endividamento alvinegro chegou a um estado pior até do que na época do rebaixamento para a segunda divisão, após a saída da MSI. As dívidas hoje representam duas vezes a arrecadação anual. Na década passada, esta relação sempre esteve em um para um.
Por que arrecada tão pouco? Nos direitos de transmissão, o Corinthians ainda tem uma das maiores quantias. O tamanho da torcida faz diferença no pay-per-view, principalmente. Mas hoje esse tipo de receita é complementada por bons desempenhos na Copa do Brasil e na Libertadores – cujos pagamentos são entendidos como televisão.

Sem Libertadores e eliminado da Copa do Brasil já nas oitavas de final, o clube não complementou suas receitas com transmissão e premiações.
Na área comercial, a notícia é positiva. A partir dos muitos patrocínios fechados para a camisa, a diretoria recuperou desempenho e voltou a arrecadar R$ 90 milhões com esta linha. Num cenário de crise econômica no país e de estagnação comercial do futebol, não deixa de ser bom.

No relacionamento com o torcedor, vem o primeiro grandessíssimo problema. Para uma das maiores torcidas do país, arrecadar cerca de R$ 14 milhões com sócios-torcedores é frustrante. E não acaba aí.

O Corinthians registrou em seu balanço a entrada de R$ 62 milhões com bilheterias da Arena Corinthians, mas o valor não pôde ser usado pelo futebol. Todo o dinheiro vem sendo usado para pagar despesas e dívidas do estádio – aliás um projeto inteiramente de Andrés Sanchez.

O GloboEsporte.com subtraiu este valor do faturamento pois:

Como o endividamento da Arena não foi contabilizado no balanço do clube, não faz sentido considerar suas receitas e despesas na análise
O dinheiro não pertence efetivamente ao clube, e sim ao fundo constituído em sociedade com a Odebrecht para gerir o estádio
O próprio Corinthians não contabilizou receitas com bilheterias e despesas com partidas em suas demonstrações até 2017
Mesmo se bilheterias fossem consideradas, isto só faria diferença para ranking de faturamento. Na prática, contabilizar não muda o principal. Pois as contas da Arena Corinthians são negativas da seguinte maneira.

Em 2019:

R$ 62 milhões em receitas com bilheterias
R$ 23 milhões em despesas com partidas
Passa a régua: R$ 39 milhões deveriam ser repassados pelo clube de futebol para o fundo do estádio, para que este valor bancasse outros custos (manutenção, segurança, limpeza etc) e a dívida da construção
R$ 28 milhões foram efetivamente repassados ao fundo
R$ 11 milhões viraram dívida do Corinthians com o fundo
Ou seja, de toda a arrecadação com bilheterias, a associação civil Corinthians se apropriou de apenas R$ 11 milhões para usar em outras finalidades, e nem mesmo este dinheiro lhe pertence. Ele deveria ter sido repassado ao fundo imobiliário composto por Corinthians e Odebrecht.
Por fim, transferências de atletas caíram pela metade em relação a 2018. Neste caso, o GloboEsporte.com considera a receita líquida de comissões e repasses para terceiros em direitos econômicos, para que o número seja comparado corretamente com os demais clubes.

Em resumo, a melhora nos patrocínios compensou a queda nos atletas. Prejudicado pela estrutura do estádio, o clube perdeu competitividade com adversários diretos – especificamente, Flamengo e Palmeiras.
Nos gastos, encontramos o segundo grandessíssimo problema do Corinthians em suas contas. Andrés fala a verdade quando diz que estourou em despesas com jogadores. Mas o futebol não está sozinho.

O Corinthians tem força pelo futebol e por seus milhões de torcedores. Nos bastidores, a política consome parte considerável dos recursos. Ela está organizada por meio das atividades sociais e amadoras.

Esta estrutura social e amadora teve as seguintes receitas em 2019, de acordo com separação feita pela diretoria financeira no balanço:

R$ 15 milhões em mensalidades de associados
R$ 8 milhões em explorações comerciais
R$ 8 milhões em licenciamentos e franquias
R$ 4 milhões em outras receitas (não detalhadas)
O torcedor poderia ser chato: explorações comerciais são mesmo “sociais e amadoras”? O patrocínio da Estrella Galícia, que corresponde à maior parte disso, existe por causa do futebol. Não dos sócios.
Licenciamentos e franquias são mesmo “sociais e amadores”? Contratos para produção de produtos com o escudo do clube, bem como a abertura de lojas, têm força por causa do futebol. Não dos sócios.

Nas despesas, os valores são:

R$ 38 milhões em salários e encargos trabalhistas
R$ 19 milhões em serviços de terceiros
R$ 21 milhões em gastos gerais e administrativos
R$ 2 milhões em esportes amadores
Desconsideramos R$ 2 milhões em depreciação e amortização, pois esta linha existe por motivo contábil e não tem desembolso de dinheiro vivo. Também ignoramos R$ 15 milhões em “rateio das despesas” que o Corinthians faz no balanço – a direção tira grana do futebol e a insere entre sociais e amadores para melhorar artificialmente seu resultado.

No fim das contas, a estrutura política do clube dá um prejuízo de R$ 45 milhões. Este dinheiro poderia ser usado para reforçar o futebol, mas acaba consumido pelos conselheiros e sócios no cotidiano. Por que Andrés Sanchez (e todos os outros presidentes antes dele) não mexe nisso? Porque eleição se faz com conselheiro e sócio. Não com torcedor.
E então: o futebol.
Ao comparar as projeções feitas pela diretoria financeira do Corinthians antes da temporada e depois dela, ficam evidentes duas decepções. A arrecadação não bateu a expectativa, principalmente por não avançar em competições, e a despesa notoriamente saiu do controle.
Na folha salarial, estão considerados salários, encargos trabalhistas, direitos de imagem, direitos de arena e gratificações (bichos). Apenas do futebol profissional, sem considerar atividades sociais e amadoras. A diferença entre orçado e realizado foi um estouro de R$ 65 milhões.

O Corinthians ainda tem problemas com despesas financeiras. Em 2019:

R$ 27 milhões em juros sobre empréstimos e financiamentos
R$ 2 milhões em impostos sobre operações financeiras (IOF)
R$ 1 milhão em correção monetária sobre impostos atrasados
R$ 38 milhões em despesas financeiras sem detalhamento
Como é possível que o Corinthians tenha um deficit (prejuízo) de R$ 177 milhões em uma temporada só? Receitas abaixo do planejado, despesas muito acima, atividades sociais e amadoras absurdamente deficitárias, juros sobre dívidas. E o pior ainda está por vir. Pois o resultado disso tudo está em um perigoso aumento do endividamento.
Na folha salarial, estão considerados salários, encargos trabalhistas, direitos de imagem, direitos de arena e gratificações (bichos). Apenas do futebol profissional, sem considerar atividades sociais e amadoras. A diferença entre orçado e realizado foi um estouro de R$ 65 milhões.

O Corinthians ainda tem problemas com despesas financeiras. Em 2019:

R$ 27 milhões em juros sobre empréstimos e financiamentos
R$ 2 milhões em impostos sobre operações financeiras (IOF)
R$ 1 milhão em correção monetária sobre impostos atrasados
R$ 38 milhões em despesas financeiras sem detalhamento
Como é possível que o Corinthians tenha um deficit (prejuízo) de R$ 177 milhões em uma temporada só? Receitas abaixo do planejado, despesas muito acima, atividades sociais e amadoras absurdamente deficitárias, juros sobre dívidas. E o pior ainda está por vir. Pois o resultado disso tudo está em um perigoso aumento do endividamento.
O sinal mais claro do descontrole das dívidas corintianas está na divisão delas conforme prazo para pagamento. Em 31 de dezembro de 2019, o clube tinha nada menos do que R$ 399 milhões com vencimento inferior a um ano, portanto no decorrer de 2020. Dívida impagável, impraticável.

Apenas o curto prazo, essas foram as principais variações:

Empréstimos bancários aumentaram em R$ 29 milhões
Dívidas com fornecedores aumentaram em R$ 26 milhões
Direitos de imagem a pagar aumentaram em R$ 27 milhões
Obrigações trabalhistas aumentaram em R$ 79 milhões
No caso das obrigações trabalhistas, parte pequena do total se refere a salários atrasados ou correntes de jogadores e funcionários. Na verdade, a maioria remete a Imposto de Renda (IR) e Fundo de Garantia (FGTS).

A diretoria reteve o IR sobre salários de atletas, mas não o repassou ao governo. O dinheiro não lhe pertence. Entre advogados, existe consenso de que isto configura crime de apropriação indébita. Dirigentes poderiam ser presos se o poder público se movesse.

Na prática, não havia a menor chance de o Corinthians honrar com seus compromissos em 2020. Com ou sem pandemia de coronavírus. As saídas seriam procurar novos empréstimos bancários, renegociar prazos com credores, dar calotes que agravariam protestos e ações judiciais.

E este texto nem chegou a tratar da dívida da Arena Corinthians, pois ela não foi incluída no balanço do clube. O documento corintiano permite apenas compreender as consequências diretas do estádio nas contas do cotidiano, mas não há nada que deixe saber o tamanho do problema para o futuro. O balanço do fundo é vago e mal detalhado.
Não espanta que a direção alvinegra tenha festejado tanto a venda de Pedrinho ao Benfica em março de 2020. Os valores a receber dos portugueses podem ser antecipados, por meio de empréstimos bancários, para aliviar o curtíssimo prazo. Resolver, não resolvem.

E o Corinthians ainda está em ano eleitoral. Andrés Sanchez não pode mais se candidatar, mas não há dúvida de que influenciará a política. A concorrência por poder costuma pressionar as contas.

Era natural que o clube fosse desafiado a recompor seu elenco, ainda mais em uma década tão vitoriosa, depois de administrações medianas. Contratações eram necessárias. E a opinião pública realmente pressiona além da conta, na maioria das vezes de maneira irracional.

Mas o dilema entre futebol forte e finanças ordenadas é falso. O vitorioso cartola perdeu o controle em sua segunda administração, e agora lhe restará pouco para minimizar a situação: culpar a pandemia e se aliviar somente pelo fato de que tem clube ainda pior no mercado.

Fonte: Globo Esporte.com

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